3. BRASIL 14.8.13

1. A ORDEM VEIO DE CIMA
2. O ACERTO QUE SAIU DOS TRILHOS
3. O SONHO ACABOU
4. ALTA TENSO NO JABURU
5. O NINJA DO PT

1. A ORDEM VEIO DE CIMA
O Tribunal Superior Eleitoral sumiu com os pareceres tcnicos que sugeriam a reprovao das contas do PT na poca do mensalo e da campanha da presidente Dilma em 2010. Documentos revelam que isso ocorreu por determinao do ministro Ricardo Lewandowski.
RODRIGO RANGEL

     Em outubro do ano passado, o Supremo Tribunal Federal monopolizava as atenes do pas quando alinhavava as ltimas sentenas aos responsveis pelo escndalo do mensalo. Naquele mesmo ms, s que em outra corte de Justia e bem longe dos holofotes, um auditor prestava um surpreendente depoimento, que jogava luz sobre episdios ainda nebulosos que envolvem o maior caso de corrupo da histria. O depoente contou que, em 2010, s vsperas da eleio presidencial, foi destacado para analisar as contas do PT relativas a 2003  o ano em que se acionou a superengrenagem de corrupo. Foi nessa poca que Delbio Soares, Marcos Valrio, Jos Genoino e o restante da quadrilha comandada pelo ex-ministro Jos Dirceu passaram a subornar com dinheiro pblico parlamentares e partidos aliados. Havia farto material que demonstrava que a contabilidade do partido era similar  de uma organizao criminosa. Munido de documentos que atestavam as fraudes, o auditor elaborou seu parecer recomendando ao tribunal a rejeio das contas. O parecer, porm, sumiu  e as contas do mensalo foram aprovadas. 
     Menos de dois meses depois, ocorreu um caso semelhante, to estranho quanto o dos mensaleiros, mas dessa vez envolvendo as contas da ltima campanha presidencial do PT. O mesmo auditor foi encarregado de analisar o processo. Ao conferir as planilhas de gastos, descobriu diversas irregularidades, algumas formais, outras nem tanto. Faltavam comprovantes para justificar despesas da campanha. A recomendao do tcnico: rejeitar as contas eleitorais, o que, na prtica, significava impedir a diplomao da presidente Dilma Rousseff, como determina a lei. Ocorre que, de novo, o parecer nem sequer foi includo no processo  e as contas de campanha foram aprovadas. As duas histrias foram narradas em detalhes pelo auditor do Tribunal Superior Eleitoral, Rodrigo Aranha Lacombe, em depoimento ao qual VEJA teve acesso. Ambas cristalizam a suspeita de que a Justia Eleitoral manipula pareceres tcnicos para atender a interesses polticos  o que j seria um escndalo. Mas h uma acusao ainda mais grave. A manipulao que permitiu a aprovao das contas do mensalo e da campanha de Dilma Rousseff teria sido conduzida pessoalmente pelo ento presidente do TSE, o ministro Ricardo Lewandowski. 
     O depoimento do auditor, que trabalhou no TSE de 2003 at o ano passado, foi prestado ao juiz Carlos Henrique Perptuo Braga, secretrio-geral do TSE e brao-direito da atual presidente do tribunal, a ministra Crmen Lcia. Veio precisamente de Crmen Lcia a deciso que, em junho de 2010, aprovou com algumas ressalvas as contas do mensalo. O auditor Lacombe afirma que a ministra foi induzida a erro pela assessoria, que teria ignorado graves irregularidades apontadas, por exemplo, em documentos da Receita Federal que mostravam movimentaes financeiras muito alm das declaradas pelo PT e emprstimos fajutos tomados junto aos bancos BMG e Rural no auge do mensalo. Lacombe diz que a assessoria da ministra foi "negligente, porque eram graves e de fcil comprovao as irregularidades". O auditor relata que, na sequncia, recebeu a incumbncia de produzir um relatrio sobre o caso e identificou um rosrio de problemas que, nos pareceres anteriores, haviam sido solenemente ignorados. Um dos pontos centrais do parecer do auditor dizia respeito a uma resoluo baixada um ano antes pelo prprio TSE segundo a qual o tribunal no pode desconsiderar documentos fiscais que indiquem irregularidades na movimentao financeira dos partidos, especialmente quando esses papis forem provenientes de auditorias da Receita. Era exatamente o caso do PT, que aps o mensalo havia sofrido uma devassa do Fisco. Com essa e outras consideraes, o parecer elaborado por Lacombe que indicava a rejeio das contas foi ento encaminhado  direo do tribunal para que fosse juntado ao processo e servisse de subsdio para a deciso da relatora. "Eu nunca fiquei sabendo desse parecer", garante a ministra Crmen Lcia. 
     Parte integrante de uma sindicncia instaurada para apurar exatamente a m conduta de servidores do setor de fiscalizao partidria do tribunal, o depoimento do auditor Lacombe tambm revela articulaes que possibilitaram a aprovao das contas da campanha da ento presidente eleita. Dilma Rousseff. Durante o trabalho, ele concluiu que gastos superiores a 2 milhes de reais no estavam devidamente comprovados com documentos fiscais, como exige a lei. Eram, em sua maior parte, despesas com passagens areas. Na opinio do auditor, a irregularidade deveria levar  rejeio das contas de Dilma. Lacombe relata que, primeiro, foi orientado pela chefia, imediata a alterar o parecer. E que, como ele no cedeu, outros auditores foram designados para elaborar um novo documento.  a que surge a revelao mais surpreendente do depoimento: Lacombe disse ter sido informado, tempos depois, de que a alterao havia sido feita "a pedido do ministro Ricardo Lewandowski". 
     A afirmao causou perplexidade e, num primeiro momento, muitas dvidas. Primeiro, porque no  normal que o presidente do tribunal interfira no teor de um parecer da auditoria. Segundo, porque qualquer juzo de valor sobre questes tcnicas do processo s pode ser feito pelo ministro-relator do caso  ainda assim, apenas no momento de elaborar sua deciso. Em ambos os casos, Lewandowski no era nem uma coisa nem outra. Diz a atual presidente do tribunal, a ministra Crmen Lcia: "Um presidente do tribunal no despacha com os funcionrios da rea tcnica. Um presidente do tribunal nem fica sabendo de parecer. No acredito nem em sonho que ele (Lewandowski) tenha feito isso". "Isso  muito grave. O ministro no podia mandar alterar um parecer da rea tcnica", define um ex-presidente do tribunal, que pediu para no ser identificado. Mas quem garante que foi mesmo o ministro o responsvel pela interferncia indevida? 
     Em seu depoimento, o auditor conta ter ouvido essa verso da boca de uma auxiliar do prprio Lewandowski. Procurado por VEJA, o ministro negou que tenha feito qualquer incurso a favor do PT ou da presidente Dilma Rousseff. Em nota, ele disse que a Coepa, o rgo tcnico do tribunal encarregado da anlise de contas eleitorais e partidrias,  formado por profissionais de alto nvel de especializao, que trabalham com "absoluta independncia e iseno". "Diante dessas caractersticas", escreveu o ministro, " impossvel a interferncia externa ou interna de quem quer que seja nas concluses da Coepa, que delibera com plena autonomia, tendo como base a legislao aplicvel e os documentos que integram os autos do processo." Esclarecido? No. Documentos anexados  sindicncia desmentem o ministro. Eron Vieira Pessoa, funcionrio do TSE, confirmou que Lewandowski convocou uma reunio com os servidores do setor de fiscalizao para reclamar do parecer que opinava pela rejeio das contas da campanha presidencial petista em 2010. "Na oportunidade, o ministro-presidente externou frontal discordncia e descontentamento com o entendimento exarado pela unidade tcnica", disse Eron. A postura do ministro, segundo o funcionrio, "motivou a alterao do entendimento da unidade tcnica". Ou seja: Lewandowski, que diz ser impossvel a interferncia de quem quer que seja, interferiu no processo que analisava as contas petistas  e inverteu a concluso dos peritos. 
     VEJA teve acesso a outros documentos ainda mais contundentes, incluindo mensagens eletrnicas despachadas pelo prprio Lewandowski, que revelam o empenho dele na aprovao das contas de campanha da presidente Dilma Rousseff. Faltavam dez dias para a cerimnia de diplomao da presidente eleita. Nas mensagens trocadas com assessores, o ministro, que nada tinha a ver com o processo, cujo relator era o juiz Hamilton Carvalhido, demonstra irritao com o teor do parecer que pedia a rejeio das contas  um "problemo", nas palavras dele. "No estamos lidando com as contas de um 'boteco' de esquina, mas de um comit financeiro de uma presidente eleita com mais de 50 milhes de votos. Se fosse assim, contrataramos um tcnico de contabilidade de bairro", escreveu o ministro a Patrcia Landi, sua funcionria de confiana e ento diretora-geral do TSE. 
     Em outra mensagem, em resposta a uma minuta que acabara de receber apontando justamente as irregularidades nos documentos apresentados pelo PT, o ministro estrila: "No entendi! Qual a diferena entre faturas e notas fiscais para o efeito de prestao de contas?  uma irregularidade insanvel? As despesas no tm origem? Foram fraudadas?". Ele segue indagando: "Quais as consequncias prticas dessa desaprovao? No seria possvel a aprovao com ressalvas ou essa era a nica alternativa? De quem foi a deciso? Qual a repercusso desse parecer sobre a diplomao dos candidatos eleitos?". "Quero receber explicaes detalhadas por ocasio do meu retorno na quarta-feira", arremata o ministro, em tom imperial. Diligente, Ricardo Lewandowski estava em viagem ao exterior. "Assim que voltou a Braslia, ele reuniu os chefes do setor e ordenou as alteraes nos pareceres", disse a VEJA um graduado funcionrio da rea tcnica. Como queria Lewandowski, as irregularidades apontadas nas contas da candidata Dilma Rousseff foram desprezadas. Como queria Lewandowski, as contas foram aprovadas na semana seguinte, a tempo de no criar nenhum "problemo" para Dilma nem para o PT. Nesta semana, o Supremo Tribunal Federal retoma a parte final do julgamento dos mensaleiros. Analisar os ltimos recursos dos 25 rus condenados  cadeia. Provavelmente sero reeditados os acalorados debates entre o relator do processo, o ministro Joaquim Barbosa, e o revisor Ricardo Lewandowski, que sempre defendeu a absolvio dos principais acusados. 
COM REPORTAGEM DE HUGO MARQUES


2. O ACERTO QUE SAIU DOS TRILHOS
Como sete anos depois de eclodir na Europa, o maior escndalo de corrupo empresarial do mundo, que movimentou 1,4 bilho de dlares, chega ao Brasil.
LADRA DINIZ

     A Siemens  uma empresa de histria e nmeros extraordinrios. Maior conglomerado de engenharia da Europa, tem mais de 160 anos de existncia, 400.000 funcionrios e atuao em todos  todos  os pases do mundo, exceto a Coreia do Norte. Em 2006, esse gigante alemo produziu outro marco notvel na forma de um megaescndalo de corrupo. Denncias annimas feitas  polcia alem indicaram que a empresa, por meio de uma subsidiria, usava contas na Sua e em Liechtenstein para movimentar milhes de euros destinados a estufar os bolsos de ministros e funcionrios pblicos em diferentes partes do mundo em troca de vantagens. Foram identificadas inicialmente transaes suspeitas na Itlia e na Grcia. Nas semanas seguintes, mais e mais denncias comearam a ser reveladas. Ao final, a investigao encontrou 4283 pagamentos irregulares, no valor total de 1,4 bilho de dlares, em 332 projetos executados em duas dezenas de pases. Foi o maior escndalo de corrupo empresarial do mundo. Para sobreviver a ele, o conselho da Siemens decidiu demitir o presidente executivo da empresa, Heinrich von Pierer, e mais uma centena de diretores e gerentes. Ao mesmo tempo, implantou um sistema interno com o objetivo de investigar qualquer suspeita envolvendo seus funcionrios em atos de corrupo, suborno e prticas desleais no mundo. A limpeza foi feita em um acordo com as autoridades americanas e europeias. Entre multas, indenizaes e custas processuais (veja o quadro na pg. 54), a Siemens pagou 2,5 bilhes de euros para tirar seu logo da lama. 
     Sete anos depois, no entanto, essa lama continua a respingar, desta vez no Brasil. Desde o incio do sculo XX, a empresa faz negcios no pas. Assinou contratos com diversos governos estaduais (a maioria com o do PSDB paulista), com o governo federal e a Itaipu Binacional (veja o texto na pg. 56). Em 2008, com o uberescndalo ainda fresco na Europa, o ombudsman da empresa na Alemanha recebeu uma carta annima denunciando irregularidades na Siemens do Brasil. A equipe de auditoria foi acionada, veio ao pas, mas nada encontrou. Em 2011, porm, a empresa recebeu novas denncias, dessa vez apresentadas por seus prprios funcionrios, e conseguiu reunir indcios suficientes para atestar que a Siemens fez acordos ilegais com concorrentes para fraudar pelo menos cinco licitaes pblicas, quatro em So Paulo e uma no Distrito Federal. Em dezembro de 2011, a Siemens levou o caso ao Conselho Administrativo de Defesa Econmica (Cade), rgo federal ligado ao Ministrio da Justia. A apurao do Cade deu origem  Operao Linha Cruzada, da Polcia Federal, no ltimo dia 4 de julho. O que se pode dizer da averiguao feita at agora pelas duas instituies  que h evidncias gritantes de que, entre 1998 e 2008, quinze empresas se uniram para combinar o resultado de cinco licitaes de transportes sobre trilhos, no valor de quase 1,2 bilho de reais. Duas licitaes diziam respeito ao metr de So Paulo, duas  CPTM (empresa de trens metropolitanos do governo paulista) e uma ao metr do Distrito Federal. No perodo dos contratos, o PSDB comandava So Paulo e o DEM, o Distrito Federal. 
     A isso se d o nome de cartel, crime no qual um grupo de empresas se une para lotear o mercado e combinar preos, de forma a atropelar a livre concorrncia e aumentar seus ganhos, j que, em seus acordos secretos, nunca decidem fixar os valores para baixo. Restam poucas dvidas de que esse crime ocorreu nas licitaes de So Paulo e do Distrito Federal. E-mails trocados pelas empresas que a Siemens acusa de ter participado do acordo, e recolhidos pela PF, so contundentes nesse sentido. 
     O que no est comprovado  ainda   que, alm do crime de cartel, as empresas cometeram o crime de corrupo. Ou seja, no h provas de que, alm de lesarem o Errio combinando elevar os preos da licitao, as empresas tenham pagado propina a algum funcionrio pblico para que ele ajudasse o grupo ou fizesse vista grossa ao acordo. A Siemens afirma no ter encontrado, nas investigaes internas que realizou, indcios de pagamento ilegal a nenhuma autoridade brasileira. Nos milhares de documentos e e-mails apreendidos, aparecem apenas os nomes de dois polticos, os ex-governadores Jos Serra (PSDB-SP) e Jos Roberto Arruda (DEM-DF). Os dois so apenas citados  e em situaes no comprometedoras. 
     H motivos, no entanto, para desconfiar que a Siemens no se limitou ao crime de formao de cartel. Observando-se o padro de conduta com que ela atuou no restante do mundo, o caso brasileiro pode ganhar contornos mais complexos. Na Rssia, por exemplo, ficou provado que a empresa pagou 56 milhes de dlares a funcionrios do governo para conseguir contratos de compra e manuteno de equipamentos para hospitais e sistema de monitoramento de trnsito. Na China, a propina chegou a 60 milhes de dlares, valor pago em troca de vantagens em um contrato para o fornecimento de equipamentos de telecomunicaes. Em Israel, 20 milhes de dlares amaciaram funcionrios da estatal de energia. Na Nigria, 10 milhes de dlares foram para os bolsos de dois ministros. No Iraque, 1,6 milho de dlares em suborno foram pagos a autoridades, incluindo Saddam Hussein, para obter contratos no programa das Naes Unidas de troca de petrleo por comida. E, na Venezuela, 20 milhes de dlares foram gastos para conseguir o contrato de construo de duas linhas de metro. Teria sido diferente no Brasil? 

A AUTODENNCIA DA SIEMENS
Em 2008, a Siemens pagou 2,5 bilhes de euros, entre multas e custas processuais, depois da revelao de envolvimento em casos de propina para a obteno de contratos pblicos em cerca de 300 projetos em duas dezenas de pases. Para limpar sua imagem, a prpria empresa fez uma investigao interna, num acordo com autoridades americanas e europeias. Suspeitas chegaram a ser apuradas no Brasil, sem resultados conclusivos. Mas, no ano passado, munida de novas provas, a empresa alem apresentou ao Conselho Administrativo de Defesa Econmica (Cade), do governo federal, uma denncia sobre a formao de cartel na concorrncia de projetos em So Paulo e no Distrito Federal.

BRASIL
O QUE ACONTECEU: a Siemens recebeu denncias, feitas pelos prprios funcionrios da subsidiria brasileira, sobre a formao de cartel (acerto entre empresas para fraudar uma concorrncia) em licitaes do metr e de trens urbanos em So Paulo e em contratos do metr do Distrito Federal. Em 2012, a empresa, beneficiando-se de um acordo de lenincia (iseno de penalidades para os denunciantes), apresentou as denncias ao Conselho Administrativo de Defesa Econmica (Cade). O prejuzo ao Errio pode ter chegado a 450 milhes de reais.

CONTRATOS SOB SUSPEITA 
1- 2000 - Trens e equipamentos para o Trecho 1 da Linha 5 - Lils do metro de So Paulo 
2- 2001 e 2002  Manuteno de trens da CPTM 
3- 2004 - Modernizao de trens da Linha Safira da CPTM 
4- 2005 - Expanso da Linha Verde do metr de So Paulo 
5- 2007 - Manuteno do metr do Distrito Federal 

EMPRESAS ENVOLVIDAS | PARTICIPAO NOS CONTRATOS
Alstom | 1, 2, 3, 4, 5
Bombardier | 1, 4
CAF | 1
Mitsui | 1, 3
Siemens | 1, 2, 3, 4, 5
Serveng | 5
Iesa | 4, 5
Hyundai | 3
Tejofran | 4
TTrans | 1, 2, 4
MPE | 4, 5
MGE | 4, 5
DaimlerChrysler | 1
Balfour Beatty | 1
TCBR | 5
Temoinsa | 1, 3, 4

NORUEGA
A Siemens pagou jantares de luxo e viagens a clubes de golfe a autoridades do Departamento de Defesa noruegus em 2004. A empresa foi multada em 340.000 dlares. Doze militares foram acusados, mas ningum foi punido.

ITLIA
Dois ex-chefes da Siemens so investigados por pagar 6 milhes de euros em suborno a funcionrios da estatal de energia Enel entre 1999 e 2002. O dinheiro asseguraria o contrato de fornecimento de turbinas. A empresa foi multada em mais de 50 milhes de dlares e dois executivos foram condenados a penas de priso domiciliar.

VENEZUELA
A Siemens pagou 20 milhes de dlares a autoridades a fim de ganhar uma licitao para a construo de duas linhas de metr. A empresa foi condenada a pagar 500.000 dlares em multa. Um funcionrio do governo, que no teve seu nome revelado, est sendo investigado.

RSSIA
Cerca de 56 milhes de dlares foram pagos a funcionrios do governo russo para obter vantagens em contratos de compra e manuteno de equipamentos para hospitais e sistemas de monitoramento de trnsito. O vice-diretor do Departamento de Sade foi condenado a pagar cerca de 20.000 dlares em multas e a cumprir oito anos de trabalho para o governo

NIGRIA
Mais de 10 milhes de dlares foram pagos em propina a dois ex-ministros para assegurar contratos de venda de equipamentos de telecomunicaes entre 2002 e 2005. A empresa foi multada em 250 milhes de dlares. Ministros, funcionrios do governo e da Siemens esto sendo investigados.

GRCIA
A empresa foi investigada pelo pagamento de propina aos dois principais partidos da Grcia para conquistar contratos do metr de Atenas. Mais de 12 milhes de dlares foram distribudos entre 1998 e 2005. O ex-presidente da Siemens na Grcia, Michael Christoforakos, fugiu para a Alemanha e foi detido. Quinze polticos estariam envolvidos, mas nenhum foi investigado formalmente.

ISRAEL
A Siemens foi investigada pelo pagamento de 20 milhes de dlares a um ex-diretor e a outros funcionrios da Israel Electric Corporation, a estatal de energia. Dan Cohen, ex-diretor da companhia, fugiu para o Peru, foi extraditado e est preso. Em um acordo, ele disps-se a pagar mais de 2,8 milhes de dlares e ficar preso por cinco anos.

IRAQUE
De 1999 at 2007, a companhia pagou 1,6 milho de dlares em suborno a autoridades iraquianas, incluindo o ento presidente Saddam Hussein, a fim de obter contratos no programa da ONU que permitia ao pas trocar petrleo por alimentos.

CHINA
De 2002 a 2009, 60 milhes de dlares foram pagos em propina para que a Siemens fosse beneficiada em contratos de compra de equipamentos mdicos e de telecomunicaes. Em 2011, o diretor da empresa estatal de telecomunicaes Shi Wanzhong foi condenado  morte. Um funcionrio que intermediou o esquema, Tian Qu, pegou uma pena de quinze anos de priso.

ARGENTINA
Em 1996, a Siemens pagou 40 milhes de dlares para subornar autoridades e vencer uma licitao de 1 bilho de dlares para a impresso de novos documentos de identidade e a informatizao dos postos de fronteira. Oito ex-funcionrios foram acusados formalmente pela Justia americana, e as multas superaram 400 milhes de dlares. Nenhum poltico argentino foi denunciado formalmente. 

SUSPEITA TURBINADA
     As investigaes sobre o suposto cartel na construo e manuteno de linhas de trem e metr em So Paulo e no Distrito Federal revelaram ao pas a atuao da Siemens em sintonia com as autoridades brasileiras para ajudar a esclarecer o caso. Alvo das apuraes envolvendo pagamento de propina e corrupo internacional, a empresa alem passou a colaborar, fornecendo documentos corporativos e informaes sigilosas para obter, em troca, sanes mais brandas no futuro. A Siemens pode ajudar a esclarecer outro episdio. Em 2006, VEJA revelou que um ex-conselheiro da hidreltrica Itaipu Binacional, o advogado Roberto Bertholdo, em uma conversa gravada com um scio, acusava o diretor-geral da usina, o petista Jorge Samek, de ter cobrado 6 milhes de dlares da Siemens para perdoar uma dvida milionria da empresa com a estatal. A Siemens tinha um contrato de 184,6 milhes de dlares para a fabrica fabricao de turbinas e enfrentava problemas em cumpri-lo. 
     Bertholdo era apontado como o principal operador do ex-deputado Jos Borba (ento no PMDB do Paran) no esquema do mensalo. Segundo o relato dele, o consrcio, que tinha a Siemens como uma das parceiras, teria recebido multas milionrias por no cumprir o cronograma de entrega de duas turbinas. A propina seria uma compensao por uma renegociao dos valores ou at mesmo do perdo total das multas, acerto que, segundo a direo da hidreltrica, nunca aconteceu. A Polcia Federal recebeu a cpia das gravaes nas quais o advogado falava de irregularidades em Itaipu. Na poca, Jorge Samek disse que no havia tratado sobre multas com quem quer que fosse. A direo de Itaipu chegou a obter na Justia um direito de resposta s acusaes do ex-conselheiro. Procurado, o grupo Siemens disse que desconhece o pagamento de comisso a funcionrios ou diretores de Itaipu.

COM REPORTAGEM DE BIANCA ALVARENGA E PIETER ZALIS


3. O SONHO ACABOU
Fundador do PT e um dos mais simblicos parlamentares do Congresso, o deputado Domingos Dutra, do Maranho, anuncia que vai deixar o partido.
ROBSON BONIN

     Desde que trocou o quilombo de Saco das Almas, onde nasceu, pelo Congresso Nacional, em Braslia, o deputado Domingos Dutra, do PT do Maranho, alimentava um sonho: pr um ponto-final na histrica supremacia da famlia Sarney, que h dcadas comanda a poltica no estado. Dez anos atrs, quando finalmente seu partido chegou ao poder, o parlamentar passou a enfrentar o dilema da realidade. Fundador e militante histrico do PT, Dutra, graas  poltica de alianas firmadas pelo ex-presidente Lula, se viu transformado de adversrio a parceiro formal do PMDB de Sarney. O deputado jamais aceitou essa condio. Os dois mandatos de Lula e os dois anos e meio de Dilma Rousseff, porm, no s consolidaram a aliana com Sarney como tambm subordinaram o PT maranhense ao comando e aos interesses dos peemedebistas. Na semana passada, a realidade finalmente  se imps em sua plenitude: Dutra jogou a toalha e resolveu anunciar sua desfiliao do PT. " falta de honestidade poltica da minha parte ficar num partido dominado pelos Sarney", explica. 
     A deciso do deputado maranhense diz muito sobre o que era e o que se tornou o PT ao longo do seu processo de ascenso ao poder. Aos 57 anos, Dutra  o retrato de uma face esquecida do petismo. Fiel s bandeiras histricas  a defesa de causas ligadas aos direitos humanos, aos negros, ndios e quilombolas , o deputado  do tempo em que os petistas pregavam a tica na poltica e saam  rua para vender broches e camisetas para manter a independncia partidria e sustentar a luta por mudanas no sistema poltico. Dutra fundou o PT no Maranho no mesmo dia em que o partido foi criado em nvel nacional. Na semana passada, ao lembrar desse detalhe, ele chorou enquanto repisava seus 33 anos de militncia. Sentado em uma poltrona do gabinete, com os ps descalos  ele usa sandlias de tiras de couro, o jeito simples que marca sua atuao na Cmara , desabafou: "Vou sair com dor no corao. Ningum deixa uma histria assim. Mas saio por coerncia com aquilo que o PT sempre se props, que foi emancipar os mais pobres". 
     Amigo de Lula, com quem conviveu desde os primeiros dias de PT  ele guarda at hoje fotos antigas como a que ilustra esta pgina , Dutra no perdoa ao ex-presidente por ter transformado o partido naquilo que o PT nasceu para combater. "O Lula e o Z Dirceu cansaram de comer camaro seco e ovo com farinha l no Maranho comigo. Em 1994, ele fez a caravana da cidadania. Eu era presidente do PT no estado. Cortamos o Maranho todo de nibus de linha, dormindo em casa  de militante. Eu vi o Lula esculhambar o Sarney em praa pblica", indigna-se. "Ele teve a chance nica de limpar esse mundo poltico, mas no quis. Os 300 picaretas que ele denunciou continuam no mesmo lugar no Congresso", completa. 
 a lembrana dos tempos de dificuldade e de luta contra o sistema vigente que magoa o deputado. Filho de uma quebradeira de coco e um lavrador, Dutra no enriqueceu na poltica e jamais deixou o Maranho. Por isso ressalta que  doloroso ver toda a soberba  os jantares, os vinhos caros, os restaurantes e o dinheiro abundante  dos companheiros de Braslia. "Continuo comendo camaro seco e ovo cozido com pinga at hoje. Eu no bebo usque", diz. O maranhense  um dos poucos petistas que consideram justo o julgamento do mensalo. " triste ver companheiros nossos condenados por corrupo, mas o PT se perdeu e foi engolido pelo sistema." 
     Inconformado com o distanciamento ideolgico do partido de sua origem, e sem espao no PT para lutar contra o domnio da famlia Sarney, Dutra passou a ajudar a construir a Rede Sustentabilidade, da ex-senadora e tambm ex-militante petista Marina Silva. Ele estuda se candidatar no prximo ano pela nova legenda. 

O PT FOI ENGOLIDO PELO SISTEMA

Por que o senhor vai sair do PT? 
Isso vem desde a minha greve de fome em 2010, quando o diretrio nacional obrigou o PT do Maranho a se coligar com os Sarney. No dia da interveno, o Manuel da Conceio, um dos fundadores do PT, tentou falar trs vezes na reunio, mas o Jos Genoino e o Jos Dirceu no deixaram. Ele veio ao plenrio da Cmara e entrou em greve de fome comigo. Agora, j estamos chegando a 2014 e continua essa relao promscua. Recentemente, um militante nosso usou dez segundos de uma insero na TV para dizer que o Maranho  atrasado. A fala saiu do ar porque o Sarney mandou o Rui Falco tirar. Saio por coerncia com aquilo que o PT se props, que foi emancipar os mais pobres. 

Qual a razo para essa mudana de foco? 
Essa  uma conta que deve ser debitada ao presidente Lula. No consigo entender a dvida que o governo e o PT tm com o senador Jos Sarney e sua famlia. O nico estado que continua em situao de misria e corrupo absoluta  o Maranho. Se tem algum que  responsvel por isso, esse algum  o Lula. Ele sustenta essa oligarquia. 

O senhor disse que  militante e amigo pessoal de Lula desde a dcada de 80. 
O Lula teve a chance nica de limpar esse mundo poltico, mas no quis. Os 300 picaretas que ele denunciou continuam no mesmo lugar no Congresso  e o pior  que muitos agora so nossos aliados. Achei muito simblico o Sarney, que no larga quem est no poder, deixar a Dilma no dia da posse dela e ir levar o Lula a So Bernardo do Campo. H uma intimidade muito grande entre os dois. Eu gostaria que o presidente Lula fosse um embaixador dos ndios, dos negros, dos quilombolas, e no um intermedirio de gente como Sarney e Eike Batista. 

Como o senhor definiria hoje o Partido dos Trabalhadores? 
A histria do PT sempre foi feita com a ideologia dos seus militantes. Em 1982, fui candidato a vereador em So Lus s para divulgar o PT. Na primeira campanha do Lula, todo mundo vendia camiseta, fazia bingo, pedia contribuio individual em festa para arrecadar dinheiro. Eu fiz muita feijoada e vendi muita rifa no Maranho para construir o partido. O PT se perdeu. Foi engolido pelo sistema. 

O senhor se refere ao mensalo? 
Embora tenha a clareza de que houve muitas mudanas positivas nestes dez anos, deu no que deu: o mensalo e toda essa gente condenada. Lamento muito o mensalo.  uma tristeza ver companheiros da gente condenados por corrupo. Eles tiveram os melhores e mais caros advogados, ampla defesa, e foram condenados em um julgamento longo e transparente no Supremo.


4. ALTA TENSO NO JABURU
Irritado com crticas de aliados, o vice-presidente Michel Temer chegou a redigir uma nota anunciando o rompimento da parceria entre o PMDB e o PT.
ROBSON BONIN

     Quando recebeu a faixa presidencial das mos de Lula, em 2011, a presidente Dilma Rousseff herdou um governo com popularidade nas alturas e uma oposio praticamente dizimada no Parlamento. Sua posse foi tambm o incio de um projeto de poder ainda mais ambicioso. A aliana entre PT e PMDB, alm de vitoriosa nas urnas, rendeu a ambos a soberania no papel de protagonistas polticos. Peemedebistas e petistas comandam o governo federal, o Congresso, administram dez estados e milhares de prefeituras pas afora. Essa simbiose, porm, esteve por um fio. Em uma crise que por pouco no atingiu o ponto de ebulio, os dois partidos estiveram muito perto de um rompimento definitivo, com direito a troca de xingamentos, ameaas e uma indita exploso de ira do vice-presidente Michel Temer  que chegou a anunciar aos conselheiros mais prximos a inteno de romper definitivamente a parceria com o governo. Foram oito horas de tensas negociaes que envolveram a presidente Dilma Rousseff, dois ministros de estado e as lideranas dos partidos  e que atingiram o pice com a redao de uma nota na qual os peemedebistas anunciavam a surpreendente deciso. 
     Disputas por espao permeiam qualquer aliana poltica, e a do PMDB com o PT nunca fugiu muito da receita  at Michel Temer virar alvo direto de ataques. Chamado de "sabotador" por um integrante da cpula nacional do PT, enquanto o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, destratava seu partido, o vice-presidente, conhecido pelo jeito cerimonioso, perdeu as estribeiras. Reunido no Palcio do Jaburu na manh do dia 31 com seus conselheiros de primeira hora, o ministro da Secretaria de Aviao Civil, Moreira Franco, e o ex-deputado Eliseu Padilha, Temer decidiu que a agresso dos petistas exigia uma resposta enrgica  e pblica. Sentado  mesa, o grupo comeou a elaborar uma nota oficial que respondesse ao governador petista. Enquanto Temer ditava, Padilha rascunhava o texto. O contedo do documento era explosivo. Em poucas palavras, Temer anunciava a ruptura da aliana com o PT caso Tarso Genro e o dirigente Markus Sokol no fossem prontamente desautorizados pela cpula petista. "O PT que esteja  vontade. Se o que diz o governador do Rio Grande do Sul retrata a vontade do PT,  bom que o partido expresse logo, porque o PMDB saber o que fazer  e seguir o seu rumo", dizia a nota escrita por Temer. 
     A inteno expressa no texto no deixava dvida. Afrontado publicamente por aliados, Temer lanava  mesa sua condio de segundo mandatrio da Repblica e exigia respeito a ele e ao PMDB. "Era uma resposta ao Tarso Genro e ao PT, para dizer que eles esto falando com o vice-presidente da Repblica e com o maior partido do pas", explica um dos interlocutores de Temer. As conversas que desencadearam a crise na aliana comearam na segunda-feira 29 de julho, com a divulgao da fala do dirigente petista, aps uma reunio extraordinria da direo da legenda, na sede do PT, em So Paulo. "Michel Temer  um sabotador porque sabotou a tentativa da presidente Dilma de realizar o plebiscito. Eu defendo a ruptura da aliana nacional com o PMDB", atacou Markus Sokol. "Se a bancada do PMDB continuar sujeita a interesses meramente fracionrios e regionais, que esto travando projetos como os que mencionei, acho que o PMDB se torna mais um problema do que uma soluo", completou depois o governador do Rio Grande do Sul. 
     O silncio da cpula petista e do Palcio do Planalto levou Michel Temer e seus conselheiros a concluir que o ataque tinha aval do governo  o chamado fogo amigo. "Se o PT rifar o Michel, vamos para os braos do Acio, ele vira vice e ganha a eleio", ameaou o deputado Eduardo Cunha, lder do partido. Nos bastidores, os auxiliares de Dilma Rousseff, j avisados da gravidade da crise, correram para conter os danos. O primeiro a ligar para Temer na esperana de apaziguar os nimos foi o ministro da Educao, Aloizio Mercadante, que tentou, sem sucesso, minimizar o impacto das declaraes dos companheiros. Temer, porm, continuou determinado a divulgar a nota de rompimento. Os petistas perceberam que no era blefe. Foi quando entrou em cena a prpria Dilma Rousseff. Ela telefonou ao presidente nacional do PT, Rui Falco, ordenando que ele desautorizasse as declaraes dos colegas. Ato contnuo, o partido publicou em sua pgina um breve comunicado informando que. "para desfazer informaes desencontradas veiculadas nos ltimos dias, o PT vem a pblico reafirmar sua parceria governamental e aliana eleitoral prioritria com o PMDB". Assinado pelo prprio Falco, o texto trouxe um adendo importante: "Alm disso, (o partido) continua com a firme disposio de reeditar, em 2014, a chapa que nos levou  vitria em 2010, com a presidenta Dilma Rousseff e o vice-presidente Michel Temer". Temer ainda recebeu um telefonema do presidente do PT, desculpando-se pelo mal-entendido. A aliana sobreviveu, mas a tenso foi apenas represada. 


5. O NINJA DO PT
Quem  Pablo Capil, o lder por trs do Mdia Ninja com um p fora do eixo e o outro dentro do governo.
HELENA BORGES

     Pablo Santiago Capil Mendes, de 34 anos, vive em dois mundos. No circuito Fora do Eixo (FdE), nome da comunidade que fundou e da qual  lder com status de guru, ele diz ser politicamente apartidrio e defende a independncia financeira do grupo a ponto de, dentro dele, fazer circular um dinheiro de mentirinha, o card. A "moeda" serve para "remunerar" o trabalho de cerca de centenas de jovens que moram nas 25 casas do FdE, espcie de repblicas de muros grafitados onde tudo  de todo mundo  incluindo as roupas, guardadas em um armrio nico e  disposio do primeiro que chegar. 
     J no outro mundo em que vive, Capil  um "companheiro", como se referiu a ele o presidente do PT, Rui Falco, e o dinheiro com que lida no s  de verdade como vem, em boa parte, dos cofres pblicos. 
     O mais recente empreendimento do Fora do Eixo, por exemplo  uma casa inaugurada em Braslia no ms de junho para hospedar convidados estrangeiros e a cpula da organizao , foi montado com dinheiro da Fundao Banco do Brasil. A ttulo de convnio, a fundao repassou  turma de Capil 204.000 reais destinados, segundo sua assessoria, a "estruturao do local, salrios de educadores e implementao de uma estao digital". O Fora do Eixo tem outras duas dezenas de casas espalhadas pelo Brasil em lugares como Fortaleza, Porto Alegre e Belm do Par. No to chiques nem to bem aparelhadas quanto a de Braslia, elas abrigam, no mesmo esquema da casa de So Paulo, jovens que trabalham voluntariamente para a organizao. 
     Parte deles atua no Mdia Ninja, grupo que ficou conhecido por fotografar, filmar e transmitir pela internet em tempo real os protestos de rua de junho. Outra parcela, bem maior, trabalha na organizao e na divulgao de atividades culturais, como os festivais de msica  o negcio mais forte do Fora do Eixo, e o caminho mais curto para o dinheiro pblico. Para chegar at ele, Capil conhece bem os atalhos. 
     Em 2010, durante a gesto do tambm petista Juc Ferreira no Ministrio da Cultura, ele foi nomeado membro do comit tcnico de msica do Fundo Nacional de Cultura  entidade que financia projetos com dinheiro do governo e que tem na fila pedidos do prprio Fora do Eixo avaliados em 2 milhes de reais. Esses comits costumam ter em sua composio representantes de variados movimentos culturais. Capil no  o nico. Mas  inegvel que, desse posto de observao privilegiado, fica bem mais fcil vencer a apertada disputa por recursos pblicos. Hoje, outro integrante do FdE  suplente no mesmo comit. 
     Embora se diga desvinculado de partidos, o companheiro Capil posa e age como petista. Em sua pgina no  Facebook, aparece com o ex-presidente Lula, abraado  presidente Dilma Rousseff e em um papo animado com o prefeito de So Paulo, Fernando Haddad. Mas seu elo com o PT no se resume a fotos com gente importante. Em setembro do ano passado, quando Marta Suplicy foi nomeada ministra da Cultura, ele e os ativistas do Fora do Eixo espalharam elogios sem fim  nova titular da pasta nas redes sociais, sob a hashtag #novoMinc. Nas eleies municipais de 2012, fez campanha para um candidato a vereador do partido em Belo Horizonte, Arnaldo Godoy. 
     Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, Capil afirmou que o Fora do Eixo movimenta de 3 milhes a 5 milhes de reais por ano, dos quais no mximo 7% seriam recursos pblicos. Uma olhada nas planilhas exibidas na internet, no entanto, desmente a afirmao. Em 2012 entraram no caixa do FdE 627.900 reais em dinheiro de renncia fiscal e verbas pblicas, o que corresponde a 12%, ou 20% da movimentao financeira do FdE. Entre as empresas que patrocinam o Fora do Eixo pelo mecanismo da renncia fiscal, esto a Petrobras, que vem pingando  777.500 reais no cofrinho de Capil desde 2010, e a Vale, que contribuiu com 160.000 reais em 2011. 
     Nascido em Mato Grosso, o guru do FdE  do tipo eloquente em pblico e tmido em particular. Passou a adolescncia trancado em casa, receoso de expor o angioma na face, doena resultante de m-formao venosa e de difcil controle. Hoje,  admirado por boa parte da comunidade que lidera  para outra parte, uma minoria,  autoritrio e de "revolucionrio s tem a pose", como disse um ex-colaborador. Nas casas do FdE, um minuto de tte--tte com ele  considerado um privilgio. 
     Para Capil, o fato de contar com dinheiro pblico e os vnculos com empresas no so um problema. "Temos independncia porque construmos os meios de produo", diz ele, referindo-se  mo de obra gratuita fornecida pelos moradores do FdE. Alguns deles deixaram seus filhos para viver na comunidade. Nesses casos,  o FdE que paga a penso das crianas. No ano passado, nasceu o primeiro beb que, segundo o Facebook do grupo, ser criado coletivamente. "Benjamin Guarani-Kaiow", anunciou alegremente o FdE em um post, "tem me e pai biolgicos, mas ser criado por uma enorme rede, veloz e nmade. Nasceu on-line com registro midialivrista e ser uma construo/experimentao dos novos bandos urbanos". Se a turma de Capil soa assim meio fora do eixo, seu lder no rasga dinheiro  pelo menos no o de verdade.


